Individual apresentada na galeria ORA
São Paulo, ago.-set., 2026
Nina Horikawa: As horas de tréguaSuspensas ou apoiadas em estruturas metálicas, pinturas sobre tecidos transparentes preenchem o espaço. As pinceladas revelam a qualidade gestual, reiterada e cumulativa do trabalho da artista. Nas imagens, há o rosto de uma mulher com os olhos semicerrados, cachorros que mostram os dentes, enormes mãos entrelaçadas. Outra mulher estica um fio; há nós e laços de fita. Uma ave enfia o bico na boca de uma pessoa, que imita sua forma com o braço e a mão, criando um insólito teatro de sombras: simulacro real da realidade.
Nas horas de trégua, em que estão suspensas as tarefas cotidianas, semiautomáticas, Nina Horikawa nos convida ao estranhamento. É preciso dar um passo atrás e desconfiar de tudo o que se apresenta em sua completude, seja uma cena, uma pintura, um enunciado. Afinal, quase nada é, exatamente, aquilo com que se parece.
A transparência do voil — literalmente, véu — faz com que as pinturas se contaminem pelos elementos que as cercam: o concreto da parede ao fundo, os pilares da sala, o piso, as outras pinturas. Elas se contaminam, sobretudo, com o corpo das pessoas que caminham, sobrepondo-se às imagens e desestabilizando aquilo que seria, idealmente, coeso e autônomo; inteiro.


O véu que serve de suporte às obras de Horikawa não é inocente. Em termos metafóricos, sua presença define e organiza uma sociedade cindida, na qual a supremacia de uma pequena parte “branca” da humanidade depende da conveniência de velar a realidade, da maneira como o intelectual afro-estadunidense W.E.B. Du Bois estabeleceu, há mais de cem anos. Ele rememora o dia em que, durante uma troca de cartões entre as crianças na escola, teve o seu recusado:
Foi quando me veio a percepção quase imediata de que eu era diferente dos demais; ou semelhante, talvez, em termos de coração e de força vital e de aspirações, mas apartado do mundo deles por um enorme véu. Não senti nenhum desejo de rasgar esse véu, de atravessá-lo; passei a desprezar todos os que estavam do outro lado e a viver acima desse véu em uma região de céu azul e grandes sombras errantes.[1]
Ao velar o espaço expositivo, Horikawa cria uma atmosfera que recusa a transparência do mundo, no sentido renascentista do termo. Na virada dos séculos 15 e 16, os métodos da perspectiva linear fizeram com que o homem — europeu, adulto, masculino, dotado de visão — se posicionasse “no centro de todas as coisas”, para citar as palavras da historiadora da arte florentina Cristina Acidini. A autora adiciona que essa “norma para a representação do espaço que guiaria as artes também inspiraria os grandes progressos da cartografia, influenciando os métodos de percepção e medida da Terra, e abrindo de fato a era das grandes viagens de exploração e chegada a novas terras”.[2] Eis a ilusão de transparência e completude da história narrada há séculos, inclusive pela pintura: o sujeito humanista, ao colocar-se como pivô do mundo, seria “inspirado” a encontrar novas terras em suas “grandes viagens” — excluindo, ou velando, toda a violência contida nesse processo, ainda em curso.
Mas Horikawa não permite que essa ilusão aconteça. O espectador das pinturas está implicado no espaço físico, num jogo de panejamentos que encobrem e descobrem a realidade imediata — incluindo as próprias imagens —, impedindo uma visão de conjunto. É como se a artista materializasse a velatura que sustenta a história bem-acabada do herói moderno, fragmentando-a em partes abertas, levemente incoerentes, inconclusas. As pinceladas soltas e as grandes áreas não preenchidas pela pintura reforçam a sensação de abertura, tanto das cenas retratadas, quanto das possibilidades que se colocam nos momentos de pausa, nas horas de trégua.

Além dos trabalhos em voil, a artista apresenta um desdobramento da série Dito-não-dito, iniciada há quatro anos. Trata-se de um conjunto instável formado por pequenas pinturas de 20 × 20 cm, periodicamente adicionadas ou subtraídas. As imagens se parecem com fragmentos de uma cena maior: há velas acesas sobre um bolo, os dedos machucados ao redor do esmalte vermelho, um rabo de cachorro, uma garganta humana, alguém que dorme, alguém que segura uma aliança ou um souvenir, entre muitas outras coisas. Mais uma vez, a sensação de abertura provocada pelas obras: a “história” apenas existe enquanto possibilidade e promessa, conforme o desejo de quem as observa.
As horas de trégua — que são as de descanso, suspensão, pausa — toma emprestado um verso da poeta paulista Eunice Arruda, em que se lê:
sim
há
as horas de trégua
Quando se afiam
as facas[3]
Se as facas são afiadas com a intenção de preparar um alimento, ou de cometer um crime, é algo que está, também, em aberto. Mas o essencial é que, na medida em que a ilusão da linearidade do tempo está suspensa, abre-se uma brecha para a criação — de uma obra de arte, certamente, mas também de novas confabulações e histórias.

Fotos: Julia ThompsonNotas
[1] DU BOIS, W.E.B. As almas do povo negro. São Paulo: Veneta, 2021, p. 21, tradução de Alexandre Boide (1ª ed., 1903).
[2] ACIDINI, Cristina. “Florença”. In Mestres do Renascimento. São Paulo: Base7/Centro Cultural Banco do Brasil, 2013, p. 19 (catálogo de exposição). Disponível em https://static.ccbb.com.br/site-prod/2021/07/Renascimento.pdf.
[3] ARRUDA. Eunice. “Observando - I”. In Poesia reunida. São Paulo: Pantemporâneo, 2012, p. 106. Publicado originalmente em Os momentos. São Paulo: Nobel, 1981.